A humildade do "passo atrás"

Projetar é atividade complexa. Partir do zero e gerir a vida das pessoas determinando aonde entrar, por onde sair, o que ver e em que ordem é dom e fardo. O agravo do erro são as insatisfações que se prolongam por anos, as excessivas manutenções ou mesmo o custo do “fazer de novo”.

Com o desenvolvimento da atividade da arquitetura, métodos de “gestão” do espaço foram elaborados e aperfeiçoados. Alturas mínimas, vãos, luminosidade foram pouco a pouco ganhando espaço em tabelas e normas.

O espaço para o erro, entretanto, ainda é grande como o espaço disponível no papel.
Clarifiquemos aqui a definição de “erro”, visto que a atividade arquitetônica pode ser direcionada por tantas variáveis distintas (sejam elas: praticidade, estética, gosto individual, moda, dentre outros) que definir algum partido como “errado” é, se não outra coisa, arrogância.
Erro é o partido arquitetônico de configuração sub-ótima nas orientações desejadas. É o partido que aceita grande número de correções que o tornariam mais adequados ao direcionamento adotado.

O veio artístico e a dificuldade em avaliar pragmaticamente a configuração do espaço escolhida pelo arquiteto cria a tendência nesses profissionais de defender seus partidos e incorporá-los ao ego. Tem-se, portanto, que criticar a óbvia falta de praticidade ao usuário no Minhocão da UnB (um edifício de 500m de comprimento e com quatro acessos) não é crítica a um projeto sub-ótimo, mas a crítica a seu criador e todo seu legado.

A consequência inexorável de se exercer uma atividade profissional com todo seu legado em jogo a cada traço não é outra senão a prepotência movida pela incapacidade de voltar atrás.
Quando um programador começa a escrever o código de um programa e se vê obrigado a fazer “gambiarras” para atingir os objetivos desejados a tendência é apagar tudo e começar novamente. O escritor faz o mesmo, assim como o desenhista. O arquiteto, vez que o partido tenha sido apresentado ao cliente em um estudo preliminar está preso às suas próprias escolhas. Apagar tudo e ter a humildade de dar um passo atrás para buscar partido que evite as “gambiarras” denota não a incompetência por ter escolhido configuração inadequada em primeiro momento, mas a maturidade de reconhecer que existem opções melhores do que as que se desenrolaram no estudo preliminar.

A arquitetura é, por definição, atividade complexa demais para que mortal, por melhor que seja, acerte sempre a melhor configuração espacial, partidos arquitetônicos, locações, revestimentos, ou direcionamentos de um projeto da primeira vez.

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