Do Engenheiro Civil

 

Nós brasileiros gostamos de mitos. Mais que isso, gostamos de ícones.

Desde os tempos dos nossos avós, profissões eram cercadas de aura de respeito. Eram os “doutores”. Não há intenção em mergulhar nessa piscina de água já turva pelo uso de conjecturas sobre a figura do “doutor”. O mito de hoje é outro.

A figura do Engenheiro civil é dessas entidades cercadas de mitos. No “inconsciente coletivo” (se é que isso existe…) do Brasileiro o título de Engenheiro é posto de Coronel e evoca respeito.

Uma parcela razoável desses mitos tem bons motivos para existir. Assim como a Medicina ou o Direito, a Engenharia é disciplina tortuosa cuja aquisição do título não era sem esforço. Ainda hoje, em tempos de faculdades “Pagou-Passou”, a Engenharia Civil cobra seu preço: É dos cursos com maior evasão nos primeiros semestres. Formam-se, portanto, os profissionais que “sobreviveram” a semestres e mais semestres de cálculo, física, química vistos em um nível de profundidade capaz de deixar pálidos os alunos de outros cursos.

Como administrador formado por uma boa universidade e pós graduado por instituição com algum renome, sempre ouvi que “os engenheiros são melhores administradores do que os administradores”.

Derrubemos, com uma dose de realidade, alguns mitos:

1. Sobre a administração:

Engenheiros não são bons administradores. O fato de haver algo de muito errado com a forma como a Administração de Empresas é ensinada no Brasil não torna Engenheiros bons substitutos. Ser bom em exatas ajuda, mas não faz bons administradores per se. Nas decisões tomadas dentro das obras percebe-se o QUANTO a falta de noção estratégica faz falta nos “substitutos”.

Um dos prováveis motivos para a existência desse mito é a facilidade que o estudante de engenharia adquire para estudar, tendo em vista a maior demanda das matérias de exatas. O estudante de Administração por outro lado é um ser livre para decidir. Pode escolher seguir o currículo da faculdade e fingir que aprende (é desesperador, mas ainda usa-se Chiavenatto nas faculdades de administração!) ou pode se apoiar nos poucos bons professores que tiver e estudar administração de verdade. O primeiro caminho, escolhido pela maioria, serviu para formar a imagem de que o curso de Administração de Empresas é um curso fácil e de pouco conteúdo.

2. Sobre a unidade e conhecimento absoluto do assunto:

De obra ou de escritório? Assim como em outras profissões, a Engenharia tornou-se compartimentalizada. Há um ecossistema de tipos distintos de profissionais. Em seus extremos figuram os engenheiros de obra e de escritório. Os Engenheiros de Obra são os práticos, do dia-a-dia. Se por um lado entendem da construção e sabem “levantar” as obras, carecem do know how de ponta. Formam um corpo de conhecimento que mistura o “sempre foi feito desse jeito” do mestre-de-obras, o bom senso  e alguma remanescência dos conhecimentos adquiridos na faculdade. É muito comum encontrar nos canteiros o profissional que usa a mesma tecnologia há anos, ou aquele que aplica nova tecnologia sem entender direito a razão.

Recentemente, realizando a recuperação de uma laje, perguntei ao engenheiro se não era necessário escovar as ferragens expostas para tirar a ferrugem antes de aplicar o anticorrosivo. A resposta foi:  “não”. Questionei novamente e ouvi: “faço recuperação há mais de 20 anos e sempre fiz assim”. Virei a embalagem do produto e busquei o “Modo de Usar”. Figurava no primeiro item: – Com uma escova de aço, retire a ferrugem encrustada”.

O outro extremo desse continuum é o Engenheiro de Escritório. Ainda que uma boa parcela seja formada por profissionais de renome, com ampla experiência, há grande parte formada por profissionais que projetam seguindo normas e padrões de objetos que nunca executaram. Ainda que o conhecimento executivo não seja, na teoria, um fator essencial para a capacidade de projeto, a experiência dá ao profissional a capacidade de discernir quais são os pontos críticos do que está projetando.

Um bom exemplo é um projeto de drenagem de garagem. Executado da cadeira do escritório, é razoável prever valas com grande extensão e profundidades de até 1,80m. Uma semana de execução com chuvas, lama e desmoronamentos, traz à cabeça do projetista a necessidade de valas mais rasas e curtas. A existência de um reservatório, item padrão em um projeto começa a ser algo “flexibilizável” para dois ou até três se o custo da execução permitir.

3. Sobre os arquitetos:

Engenheiros não são melhores do que Arquitetos. O corpo de conhecimento que constitui a disciplina da Arquitetura é deficiente. Isso é inegável e, acima de tudo, não é o tema desse texto. Essa deficiência, a exemplo do que ocorre com a Administração de Empresas, não torna o engenheiro o substituto adequado. A preocupação da arquitetura com a “gestão da dimensão espacial” é amplamente ignorada pelo curso de engenharia e, além de ser tabu, é vista como característica indicativa de falta de masculinidade. Faltou lembrar que não há função na Engenharia Civil que não a de servir à gestão da dimensão espacial humana, ressaltando que essa envolve o equilíbrio estético como variável e não só o jeito mais barato de se executar algo.  

Envolvendo e amarrando essa realidade, vivemos em um mercado aquecido, em que o simples título de Engenheiro Civil é garantia de emprego. O excesso de demanda, em adição, cria o ambiente para as empresas taparem os olhos para as decisões inadequadas, metodologias ultrapassadas, excesso de desperdício, retrabalho, obras mal acabadas e sem apelo visual. Sofre a sociedade que recebe produtos de baixa qualidade e sofre o mercado que perde a chance de valorizar os bons profissionais.

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