Administração Contemporânea e a Dobra Platônica (e, talvez, o mercado imobiliário…)

Por anos leio sobre administração de empresas e suas (tediosas) teorias administrativas cheias de gráficos, fluxogramas, setinhas e nomenclaturas que parecem fantásticas nos livros mas que nunca consegui aplicar à realidade (por mais que tenha tentado por conta própria e procurado nas empresas que tive contato). Sabia que algo estava errado com aquilo tudo. Meus posts aqui deram a entender que vejo algo errado na teoria ensinada nas escolas. Minha pós-graduação em Estratégia Empresarial só me mostrou quanto o conhecimento ensinado nas escolas de administração é fechado e ultrapassado. Paralelamente iniciei estudo da teoria do Caos, começando pelo excelente livro Chaos: Making a new Science (Caos: Fazendo uma Nova Ciência). O livro aborda, pelo prisma científico, o impacto dessa distinção entre o real e as teorias que criamos para explicar o real. Tinha certeza que havia uma forte ligação entre o que lí e a administração de empresas. Não consegui, entretanto, criar corpo de conhecimento que explicasse essa ligação.

Em seu recente livro A lógica do Cisne Negro (the Black Swan), Nassim Nicholas Taleb apresenta um conceito libertador: a Dobra Platônica. Segundo o autor, o mundo divide-se entre o mundo que idealizamos (e simplificamos para facilitar a compreensão) e o mundo real, cheio de texturas e irregularidades em que, de fato, vivemos. Assim como a ligação que esperava abordar. O autor afirma que as texturas que desconsideramos para uniformizar nossa visão de mundo são mais importantes para o desenrolar da realidade do que as formas simplificadas que criamos. Vou fazer uma pausa e abrir uma visão em paralelo. Em empresas médias/grandes, os executivos tomadores de decisão e formuladores do que se acredita ser a estratégia da empresa decide em função de informações que recebem dos escalões mais baixos da hierarquia. Essa informação chega por meio de planilhas, gráficos e relatórios, processados por alguém, livre das irregularidades e texturas da realidade.

Continuemos. Taleb afirma que há um “local” em que a realidade é simplificada (a dobra entre a vida real e a idealização platônica) em que surgem os “cisnes negros”, ou eventos altamente improváveis de alto impacto, muito mais relevantes para a história da humanidade do que o normal e previsível.  Voltemos por um minuto ao post sobre o milagroso SWOT. Nele, Mintzberg afirma que a formulação estratégica não deve ser atividade realizada em hotéis distantes com apoio de consultores e pilhas de gráficos e tabelas com forças, fraquezas, e toda aquela baboseira administrativa. O processo de formulação estratégica deve ser realizado aproveitando-se o feeling do gestor quando este capta informações da base da empresa por si mesmo (ou, afunda o pescoço como uma ema, como o autor descreve no texto original). Sem querer (querendo) os assuntos abordados são os mesmos. Não existem formas práticas de detecção de “singularidades” ou “cisnes negros” que não a simples rejeição da realidade processada e a absorção da realidade com todas as suas nuances. Somos doutrinados a aceitar categorizações (se alguém conseguir fundamentar os conceitos de operacional, tático e estratégico, dentro de empresas sem utilizar referências militares e de forma que faça sentido, por favor me envie email que publicarei aqui) e a segmentar dados que são contínuos. 

Em 1830, em seu fenomenal trabalho sobre estratégia militar On War, o general Von Clausewitz introduz um interessante conceito chamado por ele de “atrito”:

“…o atrito é um conceito que melhor descreve a distinção entre a guerra real e aquela posta no papel.”

“o atrito a que nos referimos aqui é o que torna tão difícil aquilo que aparentemente é fácil.”

O famoso “efeito borboleta“, nome popular do longo e pomposo “sistema não-linear com forte dependência das condições iniciais”, está ocorrendo o tempo todo. O mais importante é que as consequências do efeito borboleta são mais intensas do que uma ou outra tempestade ao redor do mundo. O sucesso de um empreendimento (ufa, consegui colocar a construção civil na história!) pode depender muito mais de uma singularidade do que de uma estratégia de comercialização feita de acordo com as teorias do guru prepotente Kottler.

A boa notícia é que é possível usar o risco de ocorrência de singularidades a seu favor. É possível considerar o incerto ao conceber um empreendimento e expô-lo mais a singularidades positivas (bem como protegê-lo das negativas).

Por fim, a todos os que se interessam por teoria administrativa (e os que acham que há algo errado com a administração), recomendo fortemente a leitura do livro de Taleb. Nossas empresas precisam de menos diagramas e mais conhecimento.

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