Strategus – do grego, do latim e da sua empresa.

Após uma pausa no fim do ano, estou de volta com as atualizações quinzenais.

A cena se passa em uma floresta. Vinte alunos em treinamento para o Bope, no filme “Tropa de Elite”, ouvem seu capitão, Capitão Nascimento, discorrer demoradamente sobre as origens da palavra estratégia:

Nascimento: “O conceito de estratégia, em grego strateegia, em latim strategi, em francês stratégie… Os senhores estão anotando?”

Turno: “Sim, senhor!”

Nascimento: “Vou pedir isso na prova. …em inglês strategy, Em alemão strategie, em italiano strategia, em espanhol estrategia…”

Auxiliar: “Senhor coordenador, o senhor 05 está dormindo!”

Nascimento: “Senhor 05!”

05: “Sim, senhor!”

Nascimento: “Tenha a bondade. [Entrega a 05 uma granada e puxa o pino]. Senhor 05, se o senhor deixar essa granada cair, o senhor vai explodir o turno inteiro. O senhor vai explodir os seus colegas, o senhor vai explodir os meus auxiliares, o senhor vai me explodir. O senhor vai dormir, senhor 05?

Não fosse pela presença da granada, certamente o “Sr. 05” dormiria novamente. Há uma boa razão para isso: a etimologia da palavra estratégia é largamente disseminada. Seu conceito, entretanto, é muito pouco compreendido. Não é para menos: a discordância é tão grande que, entre os estudiosos do assunto, existem dez correntes distintas de pensamento estratégico.

No último texto sobre o tema fiz duras críticas à adoção da escola de design por empresas de consultoria que usam o ferramental disponível para ganhar dinheiro fácil criando planejamentos que nunca saem do papel.

Nesse texto, segundo de uma série, será apresentada a visão da estratégia como Padrão. É uma visão um tanto fora do mainstream acadêmico, mas adotado por algumas escolas, em contraposição à escola de design.

Do total de empresas que realizaram planejamentos estratégicos anuais, quantas conseguiram cumprir o planejado da forma planejada? Certamente poucas. A razão, por certo, é o fato do planejamento explicitar (e exigir) um grau de precisão que a realidade não comporta. Segundo essa perspectiva, a formulação estratégica prescritiva (faremos isso, depois aquilo e acontecerá aquilo outro, então agiremos da forma tal) não é muito mais que um bom exercício de imaginação. Não é à toa que os planejamentos executados (consumindo tempo e recursos das organizações) tornam-se pilhas de papel inutilizadas que geram uma impressão um tanto uniforme após a leitura: “ahã…”.

A realidade nos obriga a decidir e lidar com inúmeras situações que não estão impressas em nossos planejamentos anuais. Como a sua empresa agiu frente aos temores de crise alardeados no final do ano de 2008? Havia previsão para essa crise no planejamento? Não seria a postura adotada frente a crise um parâmetro de definição da estratégia adotada pela corporação?

O padrão consistente de decisões utilizado pela empresa define sua estratégia.

Uma empresa que frequentemente decide por adotar posições defensivas, em diversas áreas da organização, até por uma questão cultural, não pode ser definida como uma empresa que adota estratégias defensivas? Certamente sim, independente do que estiver escrito em seu planejamento. E, muitas vezes, está escrito! Percebendo a postura defensiva, os gestores planejam uma estratégia agressiva de abordagem do mercado. Esse planejamento indica as aspirações dos gestores. Sua estratégia é apontada pelas decisões que tomaram.

Perceba a particularidade temporal: a visão prescritiva descreve como agiremos ANTES dos eventos ocorrerem. A visão de padrão define a estratégia em função dos padrões de decisão que tomamos DURANTE os eventos.

O lado negativo dessa perspectiva é que não é possível controlar o desenrolar da formulação da estratégia, uma vez que só se sabe a postura adotada depois de ocorridos os fatos. Para suprir essa grave deficiência da abordagem por padrão, sugere-se a adoção de postura intermediária entre a escola do design e do padrão:

Aproveita-se o controle do planejamento formal, sem suas amarras, e a iteratividade e oportunidade de aprendizado da estratégia como padrão. Usando um planejamento menos amarrado que deixe claro o objetivo desejado e parâmetros de resposta frente às incertezas do mercado. É o oposto ao que ocorre em parte das empresas que adotam a escola do design por meio de consultorias, onde vive-se o pior dos dois mundos: cria-se um enorme e amarrado planejamento que não é usado para nada, não parametriza coisa alguma, e a empresa acaba resolvendo seus problemas sem uma postura consistente com os objetivos traçados inicialmente. É o pior dos dois mundos: a granada na mão e os olhos se fechando, Sr. 05!

 

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