A culpa é do arquiteto? 2a Parte.

É sim. Sem contrariar o citado na postagem anterior, a culpa poucas vezes é dele. Isso, entretanto, não isenta esse personagem de uma série de responsabilidades.

A elaboração de um projeto arquitetônico envolve aspectos interessantes e diversos. Parte-se de um extremo, a demanda objetiva por parte do empreendedor, a outro, a concepção artística que antecede o esboço arquitetônico. É na forma como se lida com esse “meio de campo” que parece residir o problema.

De onde parte a concepção de um edifício? Segundo livro básico em diversos cursos Arquitetura – Forma, Espaço e Ordem a concepção arquitetônica surge para resolver um problema de espaço. Para resolver esse problema, o profissional parte de um  conceito (uma meta-forma que idealiza o que o arquiteto espera do edifício, não necessariamente exequível e nem sempre desenhada) e vai impondo restrições ao conceito (como suporte à estrutura, instalações e outros)  até chegar a forma de projeto.

Ainda que parta de uma concepção artística, um edifício deve seguir normas claras e rígidas e, além disso, obter o lucro máximo possível ao empreendedor. Depois disso, “com o que sobrar” faz-se a arte. Soa um tanto ríspido dizer isso a profissionais que vêem nos edifícios composições da realidade urbana, em um contexto social complexo e amplo. As regras e o lucro, entretanto, vêm antes.

Cito um caso típico, da cidade do Guará, em Brasília: um edifício de seis andares, concebido com varandas e guarda-corpo feito em vidro e alumínio. Belo visto de longe. O guarda corpo, entretanto, com 70cm de altura (40cm menor que o mínimo obrigatório) e sem vidros de segurança (como manda a NBR). Finalizada a obra, o arquiteto responsável foi consultado e negou-se a propor mudança ao projeto, afirmando que quaisquer modificações “feririam” a concepção arquitetônica do edifício. Outro exemplo, também em Brasília, em que se projetou bloco para alocar uma famosa rede de academias e foi necessária a colocação de uma caixa d`água externa para suprir o sistema de sprinklers. Para não “ferir” o projeto, a arquiteta responsável alocou a caixa com recuo de 60cm dos fundos do edifício. Resultado: além de jogar-se no lixo as toneladas de concreto usadas na fundação da caixa, gastou-se em nova fundação e, posteriormente, descobriu-se ser desnecessária a colocação de sprinklers no referido edifício. Uma simples leitura da norma teria esclarecido os dois problemas.

As NBR não são camisas de força. São mecanismos que garantem que determinado “conceito” será seguro para o uso humano, e será inserido em um “contexto urbano” sem apresentar risco aos habitantes. Tais normas não devem ser ignoradas ou sobrepujadas em hipótese alguma, em nome de conceito nenhum, por mais belo e funcional que pareça. É aí que mora o grande trunfo da profissão de arquiteto. Nem todos estão à altura das enormes exigências. É comum encontrar profissionais que pendem para o lado “artístico” ou para o lado de “linha de montagem” de projetos remendados e repetidos. Raros são os capazes de formular o que percebemos como realidade urbana de forma bela, rentável e, além de tudo, segura.

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