Auto-referência e o Mercado Imobiliário

Até que ponto uma organização é capaz de moldar o meio em que se insere a sua imagem e semelhança?

Em reunião recente, discutiu-se se determinado “adjetivo” da nossa organização era relevante para o mercado a ponto de valer a pena usar essa característica como “traço” da empresa. Algo como o “1001 utilidades” do Bom Bril.

Argumentei que não, que nosso público não valorizaria a característica em discussão e que, se essa valorização não ocorresse, teríamos lastreado nossa marca em um diferencial inócuo. Eu, pelo menos, não compraria um carro por possuir o “melhor cheiro de novo do mercado”. A réplica, que ouvi surpreso, foi das mais interessantes:

“…nós podemos fazer o mercado valorizar nossa característica”.

Fui dormir com aquela frase. Seria apenas um devaneio administrativo ou haveria algo por trás daquilo?

Alguma pesquisa me levou a artigo datado em 1973, os biólogos Chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela defendem que sistemas vivos são, na realidade, sistemas fechados que buscam a auto referência e a perpetuação da sua identidade. Isso vai em direção diametralmente oposta a toda a crença de que organismos são sistemas abertos que trocam informações com o ambiente, se adaptam e toda aquela história contada ad nauseam nas escolas de administração e livros de auto-ajuda.

Agora, espera um pouco. Se organizações, vistas como organismos, são abertas e trocam informações com o ambiente, quem é o ambiente se não organizações e mercado? Deve ficar claro que “mercado” não é uma instituição unificada, e sim um pulverizado de pessoas e organizações em arranjo que, para o nível da discussão, pode se tratar como “semi-caótico”. Esse raciocínio, extremamente radical e simplista para uns, nos revela uma interessante faceta da realidade organizacional.

Partamos do pressuposto de que o mercado imobiliário é um monopólio da empresa X. O dito “meio externo” é, nada mais do que a interação entre a empresa (monopolista), os clientes, como entes não organizados, o governo e as agências reguladoras. Ora, em um ambiente assim, a influência que a empresa exerce é, possivelmente, tão intensa quanto a que o ambiente exerce sobre a empresa. A diferença é que o ambiente é fragmentado (formado por diversos agentes, envoltos em um mercado pulverizado) e a empresa não o é. Essa relação torna a empresa X capaz de moldar o ambiente de acordo com suas regras e instituições. Sob a ótica da empresa, portanto, não há um sistema aberto (na concepção ortodoxa da palavra), já que a empresa não é capaz de identificar em que ponto sua identidade cessa. Se o ambiente externo adquire as características e instituições da empresa, até que ponto há empresa e apartir de que ponto há ambiente? O borrão existente nessas fronteiras caracterização de sistemas. Aproveitado o conceito e emulado em nossa realidade, a “identidade” de cada organização continua presente no meio, de forma mais fragmentada, em menor intensidade e menor abrangência. Ainda assim, torna-se possível o questionamento: sob essa nova ótica, até que ponto minha empresa “expande-se” além de suas fronteiras formais e até que ponto é capaz de alterar o ambiente em que se insere?

Evidentemente, quando feita, a afirmação não condizia com o porte da organização nem com a nossa realidade. Mudar a percepção do mercado não era exatamente uma opção realista. É estranto, entretanto, pensar que ela era uma possibildade. Nos retira amarras mentais e nos permite pensar: “O que se precisaria fazer para que isso fosse importante para o mercado?”.

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