Aqui não pode o Belo!

Quarta-feira, 8 Agosto, 2012

 

Antes fosse o Belo do Soweto! Infelizmente o belo que não pode aqui é o agradável aos olhos, o limpo, com poucas interferências.

Explico.

A elaboração de projetos de arquitetura (posso dizer o mesmo dos projetos de urbanismo?) desconsidera em seu partido o perfil do utilizador. Um tipo em específico: o Gérson. Esse arquétipo esquecido por Jung  é espelho de um Brasil em transição, já com hábitos modernos e civilizados, mas ainda ligado, como que por um cordão umbilical, a hábitos precários de um país lutando para crescer.

Os Gérson não são maioria. São fração menor (não mais que um décimo), mas trazem impacto substancial e vinculam a qualquer equipamento de uso comum (garagens, piscinas, salões de festa, etc.) a imagem de descuido e desorganização. Impossível culpar a gestão do condomínio se os equipamentos foram concebidos sem considerar esse tipo de usuário tão danoso ao convívio em sociedade.

Demarcações de vagas de garagem não são suficientes, infelizmente, para que esse resquício de um Brasil que gostaríamos que ficasse para trás, entenda que, ainda que “caiba” outro veículo, a circulação não é individual e não deve ser individualizada. O resultado? Tubos preenchidos com concreto poluindo visualmente a garagem e a sensação de estarmos em um cercado de bebê.

Ainda sobre vagas, vagas externas feitas com concregrama e separadas por paisagismo em grama e pequenos arbustos são um jeito perfeito de “criar” novas vagas destruindo a vegetação e o paisagismo.

Destrói-se o Belo sempre que confrontado com qualquer capricho individual.

A responsabilidade, ainda que cause pesar apontar, é do arquiteto/paisagista responsável pela concepção. Erra-se em pressupor o usuário quando da definição do partido. É amargurante ver que pensamentos como “não seria uma boa pensar em guarda-corpo para forçar a passagem no lava-pés da piscina?” não podem ser substituídos por “vamos tirar os obstáculos verticais e dar uma visão mais limpa às pessoas que estão tomando sol deitadas próximas à piscina?”.

A realidade, nesse caso, é amarga e ignorá-la dá origem a condomínios prontos para tornarem-se os mais belos cenários de brigas entre condôminos, baixa percepção de qualidade e altos custos com pessoal e segurança. Prejuízo de todos.

O erro do projetista é, nesses casos, solidariamente assumido pelo condomínio que, carente do conhecimento de um bom arquiteto, implementa soluções inadequadas (como os tubos com concreto na garagem) para sanar problema nascido quando da concepção do projeto.

Nesse ponto, à esquerda, vemos a estrada da Operação Condominial tangenciar nosso caminho. Estando tão perto, é de se pressupor o curto trajeto na elaboração de post a esse respeito.


A humildade do "passo atrás"

Sexta-feira, 3 Agosto, 2012

Projetar é atividade complexa. Partir do zero e gerir a vida das pessoas determinando aonde entrar, por onde sair, o que ver e em que ordem é dom e fardo. O agravo do erro são as insatisfações que se prolongam por anos, as excessivas manutenções ou mesmo o custo do “fazer de novo”.

Com o desenvolvimento da atividade da arquitetura, métodos de “gestão” do espaço foram elaborados e aperfeiçoados. Alturas mínimas, vãos, luminosidade foram pouco a pouco ganhando espaço em tabelas e normas.

O espaço para o erro, entretanto, ainda é grande como o espaço disponível no papel.
Clarifiquemos aqui a definição de “erro”, visto que a atividade arquitetônica pode ser direcionada por tantas variáveis distintas (sejam elas: praticidade, estética, gosto individual, moda, dentre outros) que definir algum partido como “errado” é, se não outra coisa, arrogância.
Erro é o partido arquitetônico de configuração sub-ótima nas orientações desejadas. É o partido que aceita grande número de correções que o tornariam mais adequados ao direcionamento adotado.

O veio artístico e a dificuldade em avaliar pragmaticamente a configuração do espaço escolhida pelo arquiteto cria a tendência nesses profissionais de defender seus partidos e incorporá-los ao ego. Tem-se, portanto, que criticar a óbvia falta de praticidade ao usuário no Minhocão da UnB (um edifício de 500m de comprimento e com quatro acessos) não é crítica a um projeto sub-ótimo, mas a crítica a seu criador e todo seu legado.

A consequência inexorável de se exercer uma atividade profissional com todo seu legado em jogo a cada traço não é outra senão a prepotência movida pela incapacidade de voltar atrás.
Quando um programador começa a escrever o código de um programa e se vê obrigado a fazer “gambiarras” para atingir os objetivos desejados a tendência é apagar tudo e começar novamente. O escritor faz o mesmo, assim como o desenhista. O arquiteto, vez que o partido tenha sido apresentado ao cliente em um estudo preliminar está preso às suas próprias escolhas. Apagar tudo e ter a humildade de dar um passo atrás para buscar partido que evite as “gambiarras” denota não a incompetência por ter escolhido configuração inadequada em primeiro momento, mas a maturidade de reconhecer que existem opções melhores do que as que se desenrolaram no estudo preliminar.

A arquitetura é, por definição, atividade complexa demais para que mortal, por melhor que seja, acerte sempre a melhor configuração espacial, partidos arquitetônicos, locações, revestimentos, ou direcionamentos de um projeto da primeira vez.


Do Engenheiro Civil

Terça-feira, 10 Julho, 2012

 

Nós brasileiros gostamos de mitos. Mais que isso, gostamos de ícones.

Desde os tempos dos nossos avós, profissões eram cercadas de aura de respeito. Eram os “doutores”. Não há intenção em mergulhar nessa piscina de água já turva pelo uso de conjecturas sobre a figura do “doutor”. O mito de hoje é outro.

A figura do Engenheiro civil é dessas entidades cercadas de mitos. No “inconsciente coletivo” (se é que isso existe…) do Brasileiro o título de Engenheiro é posto de Coronel e evoca respeito.

Uma parcela razoável desses mitos tem bons motivos para existir. Assim como a Medicina ou o Direito, a Engenharia é disciplina tortuosa cuja aquisição do título não era sem esforço. Ainda hoje, em tempos de faculdades “Pagou-Passou”, a Engenharia Civil cobra seu preço: É dos cursos com maior evasão nos primeiros semestres. Formam-se, portanto, os profissionais que “sobreviveram” a semestres e mais semestres de cálculo, física, química vistos em um nível de profundidade capaz de deixar pálidos os alunos de outros cursos.

Como administrador formado por uma boa universidade e pós graduado por instituição com algum renome, sempre ouvi que “os engenheiros são melhores administradores do que os administradores”.

Derrubemos, com uma dose de realidade, alguns mitos:

1. Sobre a administração:

Engenheiros não são bons administradores. O fato de haver algo de muito errado com a forma como a Administração de Empresas é ensinada no Brasil não torna Engenheiros bons substitutos. Ser bom em exatas ajuda, mas não faz bons administradores per se. Nas decisões tomadas dentro das obras percebe-se o QUANTO a falta de noção estratégica faz falta nos “substitutos”.

Um dos prováveis motivos para a existência desse mito é a facilidade que o estudante de engenharia adquire para estudar, tendo em vista a maior demanda das matérias de exatas. O estudante de Administração por outro lado é um ser livre para decidir. Pode escolher seguir o currículo da faculdade e fingir que aprende (é desesperador, mas ainda usa-se Chiavenatto nas faculdades de administração!) ou pode se apoiar nos poucos bons professores que tiver e estudar administração de verdade. O primeiro caminho, escolhido pela maioria, serviu para formar a imagem de que o curso de Administração de Empresas é um curso fácil e de pouco conteúdo.

2. Sobre a unidade e conhecimento absoluto do assunto:

De obra ou de escritório? Assim como em outras profissões, a Engenharia tornou-se compartimentalizada. Há um ecossistema de tipos distintos de profissionais. Em seus extremos figuram os engenheiros de obra e de escritório. Os Engenheiros de Obra são os práticos, do dia-a-dia. Se por um lado entendem da construção e sabem “levantar” as obras, carecem do know how de ponta. Formam um corpo de conhecimento que mistura o “sempre foi feito desse jeito” do mestre-de-obras, o bom senso  e alguma remanescência dos conhecimentos adquiridos na faculdade. É muito comum encontrar nos canteiros o profissional que usa a mesma tecnologia há anos, ou aquele que aplica nova tecnologia sem entender direito a razão.

Recentemente, realizando a recuperação de uma laje, perguntei ao engenheiro se não era necessário escovar as ferragens expostas para tirar a ferrugem antes de aplicar o anticorrosivo. A resposta foi:  “não”. Questionei novamente e ouvi: “faço recuperação há mais de 20 anos e sempre fiz assim”. Virei a embalagem do produto e busquei o “Modo de Usar”. Figurava no primeiro item: – Com uma escova de aço, retire a ferrugem encrustada”.

O outro extremo desse continuum é o Engenheiro de Escritório. Ainda que uma boa parcela seja formada por profissionais de renome, com ampla experiência, há grande parte formada por profissionais que projetam seguindo normas e padrões de objetos que nunca executaram. Ainda que o conhecimento executivo não seja, na teoria, um fator essencial para a capacidade de projeto, a experiência dá ao profissional a capacidade de discernir quais são os pontos críticos do que está projetando.

Um bom exemplo é um projeto de drenagem de garagem. Executado da cadeira do escritório, é razoável prever valas com grande extensão e profundidades de até 1,80m. Uma semana de execução com chuvas, lama e desmoronamentos, traz à cabeça do projetista a necessidade de valas mais rasas e curtas. A existência de um reservatório, item padrão em um projeto começa a ser algo “flexibilizável” para dois ou até três se o custo da execução permitir.

3. Sobre os arquitetos:

Engenheiros não são melhores do que Arquitetos. O corpo de conhecimento que constitui a disciplina da Arquitetura é deficiente. Isso é inegável e, acima de tudo, não é o tema desse texto. Essa deficiência, a exemplo do que ocorre com a Administração de Empresas, não torna o engenheiro o substituto adequado. A preocupação da arquitetura com a “gestão da dimensão espacial” é amplamente ignorada pelo curso de engenharia e, além de ser tabu, é vista como característica indicativa de falta de masculinidade. Faltou lembrar que não há função na Engenharia Civil que não a de servir à gestão da dimensão espacial humana, ressaltando que essa envolve o equilíbrio estético como variável e não só o jeito mais barato de se executar algo.  

Envolvendo e amarrando essa realidade, vivemos em um mercado aquecido, em que o simples título de Engenheiro Civil é garantia de emprego. O excesso de demanda, em adição, cria o ambiente para as empresas taparem os olhos para as decisões inadequadas, metodologias ultrapassadas, excesso de desperdício, retrabalho, obras mal acabadas e sem apelo visual. Sofre a sociedade que recebe produtos de baixa qualidade e sofre o mercado que perde a chance de valorizar os bons profissionais.


Administração Contemporânea e a Dobra Platônica (e, talvez, o mercado imobiliário…)

Terça-feira, 28 Abril, 2009

Por anos leio sobre administração de empresas e suas (tediosas) teorias administrativas cheias de gráficos, fluxogramas, setinhas e nomenclaturas que parecem fantásticas nos livros mas que nunca consegui aplicar à realidade (por mais que tenha tentado por conta própria e procurado nas empresas que tive contato). Sabia que algo estava errado com aquilo tudo. Meus posts aqui deram a entender que vejo algo errado na teoria ensinada nas escolas. Minha pós-graduação em Estratégia Empresarial só me mostrou quanto o conhecimento ensinado nas escolas de administração é fechado e ultrapassado. Paralelamente iniciei estudo da teoria do Caos, começando pelo excelente livro Chaos: Making a new Science (Caos: Fazendo uma Nova Ciência). O livro aborda, pelo prisma científico, o impacto dessa distinção entre o real e as teorias que criamos para explicar o real. Tinha certeza que havia uma forte ligação entre o que lí e a administração de empresas. Não consegui, entretanto, criar corpo de conhecimento que explicasse essa ligação.

Em seu recente livro A lógica do Cisne Negro (the Black Swan), Nassim Nicholas Taleb apresenta um conceito libertador: a Dobra Platônica. Segundo o autor, o mundo divide-se entre o mundo que idealizamos (e simplificamos para facilitar a compreensão) e o mundo real, cheio de texturas e irregularidades em que, de fato, vivemos. Assim como a ligação que esperava abordar. O autor afirma que as texturas que desconsideramos para uniformizar nossa visão de mundo são mais importantes para o desenrolar da realidade do que as formas simplificadas que criamos. Vou fazer uma pausa e abrir uma visão em paralelo. Em empresas médias/grandes, os executivos tomadores de decisão e formuladores do que se acredita ser a estratégia da empresa decide em função de informações que recebem dos escalões mais baixos da hierarquia. Essa informação chega por meio de planilhas, gráficos e relatórios, processados por alguém, livre das irregularidades e texturas da realidade.

Continuemos. Taleb afirma que há um “local” em que a realidade é simplificada (a dobra entre a vida real e a idealização platônica) em que surgem os “cisnes negros”, ou eventos altamente improváveis de alto impacto, muito mais relevantes para a história da humanidade do que o normal e previsível.  Voltemos por um minuto ao post sobre o milagroso SWOT. Nele, Mintzberg afirma que a formulação estratégica não deve ser atividade realizada em hotéis distantes com apoio de consultores e pilhas de gráficos e tabelas com forças, fraquezas, e toda aquela baboseira administrativa. O processo de formulação estratégica deve ser realizado aproveitando-se o feeling do gestor quando este capta informações da base da empresa por si mesmo (ou, afunda o pescoço como uma ema, como o autor descreve no texto original). Sem querer (querendo) os assuntos abordados são os mesmos. Não existem formas práticas de detecção de “singularidades” ou “cisnes negros” que não a simples rejeição da realidade processada e a absorção da realidade com todas as suas nuances. Somos doutrinados a aceitar categorizações (se alguém conseguir fundamentar os conceitos de operacional, tático e estratégico, dentro de empresas sem utilizar referências militares e de forma que faça sentido, por favor me envie email que publicarei aqui) e a segmentar dados que são contínuos. 

Em 1830, em seu fenomenal trabalho sobre estratégia militar On War, o general Von Clausewitz introduz um interessante conceito chamado por ele de “atrito”:

“…o atrito é um conceito que melhor descreve a distinção entre a guerra real e aquela posta no papel.”

“o atrito a que nos referimos aqui é o que torna tão difícil aquilo que aparentemente é fácil.”

O famoso “efeito borboleta“, nome popular do longo e pomposo “sistema não-linear com forte dependência das condições iniciais”, está ocorrendo o tempo todo. O mais importante é que as consequências do efeito borboleta são mais intensas do que uma ou outra tempestade ao redor do mundo. O sucesso de um empreendimento (ufa, consegui colocar a construção civil na história!) pode depender muito mais de uma singularidade do que de uma estratégia de comercialização feita de acordo com as teorias do guru prepotente Kottler.

A boa notícia é que é possível usar o risco de ocorrência de singularidades a seu favor. É possível considerar o incerto ao conceber um empreendimento e expô-lo mais a singularidades positivas (bem como protegê-lo das negativas).

Por fim, a todos os que se interessam por teoria administrativa (e os que acham que há algo errado com a administração), recomendo fortemente a leitura do livro de Taleb. Nossas empresas precisam de menos diagramas e mais conhecimento.


Strategus – do grego, do latim e da sua empresa.

Sexta-feira, 16 Janeiro, 2009

Após uma pausa no fim do ano, estou de volta com as atualizações quinzenais.

A cena se passa em uma floresta. Vinte alunos em treinamento para o Bope, no filme “Tropa de Elite”, ouvem seu capitão, Capitão Nascimento, discorrer demoradamente sobre as origens da palavra estratégia:

Nascimento: “O conceito de estratégia, em grego strateegia, em latim strategi, em francês stratégie… Os senhores estão anotando?”

Turno: “Sim, senhor!”

Nascimento: “Vou pedir isso na prova. …em inglês strategy, Em alemão strategie, em italiano strategia, em espanhol estrategia…”

Auxiliar: “Senhor coordenador, o senhor 05 está dormindo!”

Nascimento: “Senhor 05!”

05: “Sim, senhor!”

Nascimento: “Tenha a bondade. [Entrega a 05 uma granada e puxa o pino]. Senhor 05, se o senhor deixar essa granada cair, o senhor vai explodir o turno inteiro. O senhor vai explodir os seus colegas, o senhor vai explodir os meus auxiliares, o senhor vai me explodir. O senhor vai dormir, senhor 05?

Não fosse pela presença da granada, certamente o “Sr. 05” dormiria novamente. Há uma boa razão para isso: a etimologia da palavra estratégia é largamente disseminada. Seu conceito, entretanto, é muito pouco compreendido. Não é para menos: a discordância é tão grande que, entre os estudiosos do assunto, existem dez correntes distintas de pensamento estratégico.

No último texto sobre o tema fiz duras críticas à adoção da escola de design por empresas de consultoria que usam o ferramental disponível para ganhar dinheiro fácil criando planejamentos que nunca saem do papel.

Nesse texto, segundo de uma série, será apresentada a visão da estratégia como Padrão. É uma visão um tanto fora do mainstream acadêmico, mas adotado por algumas escolas, em contraposição à escola de design.

Do total de empresas que realizaram planejamentos estratégicos anuais, quantas conseguiram cumprir o planejado da forma planejada? Certamente poucas. A razão, por certo, é o fato do planejamento explicitar (e exigir) um grau de precisão que a realidade não comporta. Segundo essa perspectiva, a formulação estratégica prescritiva (faremos isso, depois aquilo e acontecerá aquilo outro, então agiremos da forma tal) não é muito mais que um bom exercício de imaginação. Não é à toa que os planejamentos executados (consumindo tempo e recursos das organizações) tornam-se pilhas de papel inutilizadas que geram uma impressão um tanto uniforme após a leitura: “ahã…”.

A realidade nos obriga a decidir e lidar com inúmeras situações que não estão impressas em nossos planejamentos anuais. Como a sua empresa agiu frente aos temores de crise alardeados no final do ano de 2008? Havia previsão para essa crise no planejamento? Não seria a postura adotada frente a crise um parâmetro de definição da estratégia adotada pela corporação?

O padrão consistente de decisões utilizado pela empresa define sua estratégia.

Uma empresa que frequentemente decide por adotar posições defensivas, em diversas áreas da organização, até por uma questão cultural, não pode ser definida como uma empresa que adota estratégias defensivas? Certamente sim, independente do que estiver escrito em seu planejamento. E, muitas vezes, está escrito! Percebendo a postura defensiva, os gestores planejam uma estratégia agressiva de abordagem do mercado. Esse planejamento indica as aspirações dos gestores. Sua estratégia é apontada pelas decisões que tomaram.

Perceba a particularidade temporal: a visão prescritiva descreve como agiremos ANTES dos eventos ocorrerem. A visão de padrão define a estratégia em função dos padrões de decisão que tomamos DURANTE os eventos.

O lado negativo dessa perspectiva é que não é possível controlar o desenrolar da formulação da estratégia, uma vez que só se sabe a postura adotada depois de ocorridos os fatos. Para suprir essa grave deficiência da abordagem por padrão, sugere-se a adoção de postura intermediária entre a escola do design e do padrão:

Aproveita-se o controle do planejamento formal, sem suas amarras, e a iteratividade e oportunidade de aprendizado da estratégia como padrão. Usando um planejamento menos amarrado que deixe claro o objetivo desejado e parâmetros de resposta frente às incertezas do mercado. É o oposto ao que ocorre em parte das empresas que adotam a escola do design por meio de consultorias, onde vive-se o pior dos dois mundos: cria-se um enorme e amarrado planejamento que não é usado para nada, não parametriza coisa alguma, e a empresa acaba resolvendo seus problemas sem uma postura consistente com os objetivos traçados inicialmente. É o pior dos dois mundos: a granada na mão e os olhos se fechando, Sr. 05!

 


O Ritmo da Dança – Explorando as possibilidades dos modelos de construção.

Quarta-feira, 15 Outubro, 2008

Nos últimos anos a concessão de financiamentos para empreendimentos imobiliários foi farta. Como analista de viabilidade passaram pela minha mão orçamentos diversos alavancados em até 80%. Essa condição nos permite algumas inferências:

  1. Os empreendedores lançarão mais empreendimentos ao mesmo tempo;
  2. Esses empreendimentos serão construídos no menor tempo possível;
  3. Não haverá grande controle sobre os métodos utilizados na produção.

Prenderei-me às duas últimas. Com o caixa do empreendimento resolvido, é do interesse dos empreendedores receber a parcela das chaves o quanto antes. Obras com duração de 30 a 36 meses como frequentemente se via seis ou sete anos atrás são raríssimas (para não arriscar dizer inexistentes). A duração típica desse período recente tem girado em torno de 18 a 24 meses para edifícios residenciais médios (até 15.000m² de Área Equivalente).

A falta de controle sobre os métodos construtivos é decorrente do tempo curto de obra e do crédito fácil. É como reza a lenda: vem fácil, vai fácil. As empresas se preocupam pouco em “como” gastam seu dinheiro cronologicamente. Incorrendo em perfil de gasto mensal muito comum nas empresas Brasileiras, como o apresentado abaixo:

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É uma trajetória de arco aberto, gastando os recursos de maneira mais ou menos uniforme, em torno de 4% ao mês, com pico de 6% no acabamento. Se fecharmos os olhos e imaginarmos, é uma obra com um número mais ou menos constante de funcionários e um fluxo de materiais similar por toda a duração da construção.

A redução do crédito à produção imobiliária é, entretanto, evidente. Virtualmente não há mais novas obras alavancadas a taxas de 80%. O mercado tem reduzido sua média para valores entre 60% e 70%, com tendência de queda. A redução no financiamento impacta fortemente o fluxo de caixa do empreendimento, mais especificamente a necessidade de aportes por parte do empreendedor. Como citado em post anterior, quanto mais dinheiro coloca-se no início do empreendimento, menor tenderá a ser sua rentabilidade. Um ideal, portanto, seria um empreendimento 100% alavancado em que não se colocasse nada, pagando o juros do financiamento com dinheiro do próprio cliente.

Com a alavancagem caindo, torna-se mais importante ao empreendedor estudar alternativas de construção que permitam acumular o máximo de dinheiro dos clientes antes de gastar com os itens mais caros da obra. Essa trajetória, que chamaremos de “otimizada”, é obtida por meio de estudos de tempos e movimentos e intenso planejamento da execução, num afinado conjunto entre a área de planejamento, orçamento e produção, visando gastar o mínimo no início e “quase tudo” ao final. A figura abaixo apresenta um exemplo de trajetória “otimizada” com a mesma duração da obra apresentada na figura anterior:

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Perceba que o gasto maior ocorre nos meses de 20 a 22, com um pico de 9% do total da obra. Aos engenheiros que lerem, pode parecer impossível realizar tanto em tão pouco tempo. Essa trajetória, todavia, não é uma novidade.

Em meados da década de 80, época em que financiamentos imobiliários eram raridade, a Encol (que, à despeito do tabu criado em torno do nome, revolucionou tecnologicamente a construção civil) já utilizava essa metodologia de construção. Uma análise mais apurada das duas figuras sobrepostas permite uma visualização clara dos ganhos com a trajetória de montagem:

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Com a sinalização clara do mercado para forte redução na concessão de crédito imobiliário, é hora das empresas aproveitarem o interlúdio do mercado e investirem em tecnologia construtiva. Redirecionar, talvez, as voluptuosas quantidades de dinheiro empregadas anualmente na manutenção de certificações ISO 9001 para esse campo do conhecimento, apresenta-se como uma saída para garantir a rentabilidade dos empreendimentos em tempos não tão ensolarados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


A culpa é do arquiteto? 2a Parte.

Sábado, 4 Outubro, 2008

É sim. Sem contrariar o citado na postagem anterior, a culpa poucas vezes é dele. Isso, entretanto, não isenta esse personagem de uma série de responsabilidades.

A elaboração de um projeto arquitetônico envolve aspectos interessantes e diversos. Parte-se de um extremo, a demanda objetiva por parte do empreendedor, a outro, a concepção artística que antecede o esboço arquitetônico. É na forma como se lida com esse “meio de campo” que parece residir o problema.

De onde parte a concepção de um edifício? Segundo livro básico em diversos cursos Arquitetura – Forma, Espaço e Ordem a concepção arquitetônica surge para resolver um problema de espaço. Para resolver esse problema, o profissional parte de um  conceito (uma meta-forma que idealiza o que o arquiteto espera do edifício, não necessariamente exequível e nem sempre desenhada) e vai impondo restrições ao conceito (como suporte à estrutura, instalações e outros)  até chegar a forma de projeto.

Ainda que parta de uma concepção artística, um edifício deve seguir normas claras e rígidas e, além disso, obter o lucro máximo possível ao empreendedor. Depois disso, “com o que sobrar” faz-se a arte. Soa um tanto ríspido dizer isso a profissionais que vêem nos edifícios composições da realidade urbana, em um contexto social complexo e amplo. As regras e o lucro, entretanto, vêm antes.

Cito um caso típico, da cidade do Guará, em Brasília: um edifício de seis andares, concebido com varandas e guarda-corpo feito em vidro e alumínio. Belo visto de longe. O guarda corpo, entretanto, com 70cm de altura (40cm menor que o mínimo obrigatório) e sem vidros de segurança (como manda a NBR). Finalizada a obra, o arquiteto responsável foi consultado e negou-se a propor mudança ao projeto, afirmando que quaisquer modificações “feririam” a concepção arquitetônica do edifício. Outro exemplo, também em Brasília, em que se projetou bloco para alocar uma famosa rede de academias e foi necessária a colocação de uma caixa d`água externa para suprir o sistema de sprinklers. Para não “ferir” o projeto, a arquiteta responsável alocou a caixa com recuo de 60cm dos fundos do edifício. Resultado: além de jogar-se no lixo as toneladas de concreto usadas na fundação da caixa, gastou-se em nova fundação e, posteriormente, descobriu-se ser desnecessária a colocação de sprinklers no referido edifício. Uma simples leitura da norma teria esclarecido os dois problemas.

As NBR não são camisas de força. São mecanismos que garantem que determinado “conceito” será seguro para o uso humano, e será inserido em um “contexto urbano” sem apresentar risco aos habitantes. Tais normas não devem ser ignoradas ou sobrepujadas em hipótese alguma, em nome de conceito nenhum, por mais belo e funcional que pareça. É aí que mora o grande trunfo da profissão de arquiteto. Nem todos estão à altura das enormes exigências. É comum encontrar profissionais que pendem para o lado “artístico” ou para o lado de “linha de montagem” de projetos remendados e repetidos. Raros são os capazes de formular o que percebemos como realidade urbana de forma bela, rentável e, além de tudo, segura.